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making of de um documentário na zs de sp

4/30/2004

Com a palavra, o Cobra... 

"A gente só fala de violência nas músicas, porque essa é a nossa realidade. É isso que a gente vive"

Quem viver, verá 

Diz a lenda, que um dia os favelados vão atravessar a ponte João Dias para buscar o que eles nunca tiveram acesso.

Uma espécie de "Mad Max" tupiniquim.

1 detalhe fundamental 

O rap que chega no "centro" é uma ponta do iceberg.

Existem dezenas de grupos que vendem milhares de CD´s, que só quem mora na periferia conhece.

Mais rap 

"Se a gente quisesse status a gente fazia o que uma pá de companheiro faz... A gente comprava uma ponto 40 e aí atrás do dinheiro, porque isso dá status, porque as minas paga pros manos que faz o movimento... isso aí traz status... O rap traz cultura, traz auto-estima..."

Ainda a primeira arma 

O Cobra escreveu um texto em que ele compara a primeira arma, de um "favelado", com o primeiro carro, de um "playboy".

Os cuidados, a emoção, etc.

É genial.

A primeira arma 

Uma "lembrança de infância", na zs, é o contato com a primeira arma.

Praticamente todo mundo tem uma história...
A arma que o tio escondia na casa...
A primeira vez que pegou em uma arma...

Como o Jefinho conta na entrevista, "conseguir uma arma é a coisa mais fácil. É só falar que você quer matar um maluco, um safado, que na mesma hora alguém te empresta uma".

C 

C não trabalha com nada relacionado ao rap, mas também sofreu influências...

Ele conta que há vários anos teve uma namorada, que morava na zona Oeste de São Paulo.

Toda vez que ela perguntava onde ele morava, era um problema. Ele desconversava, enrolava, morria de vergonha de contar a verdade... Até que os Racionais começaram a fazer sucesso.

Hoje, ele fala com orgulho que mora numa das áreas com mais grupos de rap do Brasil, a zona sul de sp.

N 

N é um bom exemplo de como o rap está transformando a periferia.
Foi garoto de rua, roubou, foi preso várias vezes...

Hoje, vive do rap, transportando grupos da zs para shows.

4/28/2004

Casamento do Cobra 

Dexter 

A gente conheceu o Dexter pouco antes do 509-E lançar o primeiro CD.

Essa foto foi tirada durante as filmagens do videoclip do 509-E, que o meu irmão dirigiu.





11% de todos os assassinatos cometidos no planeta são no Brasil 

Traduzindo em números: cerca de 40 mil pessoas são assassinadas por ano.

Detalhe: o Brasil representa apenas 2,8% da população mundial.

4/26/2004

Os travestis fazem a festa 

Bastante descriminados nos presídios, os travestis do Carandiru tiveram um momento de glória.

S.B. uma voluntária do presídio armou uma grande festa para eles: um desfile, com roupas do estilista M.S., maquiadores, DJ e uma passarela vermelha.

Musa dos presos, Rita Cadilac teve uma missão especial. Entre rebolados e chamegos, coube a ela acalmar os presos. Pedir a eles que respeitassem esse "momento".

Os travestis do Carandiru, que brilharam diante da platéia, agradecem....

Foi uma tarde inesquecível! Para todos!

Pé de pato 

Justiceiro, sem ética ou qualquer valor moral...
Tem uma lista, estritamente pessoal, e sai matando.

Sorte nossa que seu campo de ação se resume à periferia.
Desses ninguém tem o que reclamar.

Só serve como mais uma prova de que a violência que chega aqui é só uma pequena demonstração do que pode ainda vir a acontecer.

Ninguém sai ileso 

Já existe até site que dá nome aos bois.

X 

Além de ser um ótimo pseudônimo, X é o nome dado à cela de uma cadeia.

X 1 

"Eu faço isso de arma em punho, enquanto que os maiorias não precisam de arma, eles usam a caneta.
Enquanto eles roubam milhões e milhões; uma parada minha da pra cada 12 mil, 10 mil.

Ele vive numa casa cheio de privilégios e pode ir pra rua... eu não, eu tenho que ficar enjaulado"

Elemento surpresa 

Quando você perceber, já era.

Auto-estima 

Nunca tinha ouvido tanta gente falar em auto-estima.
Nem tinha me dado conta sobre a importância do exemplo.
Fica difícil para quem não tem $ para nada, aceitar com tranquilidade que até o presidente rouba.

Uma mãe pode fazer muita diferença.

Revólver 

Muitas vezes um revólver pode ser o caminho mais fácil para quem quer conquistar respeito e consideração.

Quando a fama e o dinheiro acabam... 

Os Racionais são um dos maiores e mais admirados exemplos para os moradores da zona sul.

Entre outros motivos... Como 9 entre 10 pessoas fazem questão de contar, uma das primeiras providências de quem faz sucesso na zs é se mudar para o centro. E só voltar para exibir um carrão ou quando a fama e o dinheiro acabam.

Quebrando esse paradigma, o Mano Brown continua morando na zs. "Jogando bola, dominó e baralho".

A melhor defesa, muitas vezes, é atacar... 

É muito comum ouvir alguém falando que quando não entende o que o interlocutor está dizendo, manda ver na gíria.
Cada um com o seu Aurélio...

4/24/2004

L 

L tem nove anos e já "é" do crime. Não que tenha praticado muitos roubos (até o dia da nossa conversa, "só" tinha roubado alguns pacotes de bolacha e uma bicleta).
Mas o que é muito mais grave... tem a postura e as expectativas de um criminoso. E dos mais violentos...

Como se fosse a coisa mais natural do mundo, contou a estratégia que pensou com um amigo para matar a mãe: jogar água fervendo e depois, bater com um pedaço de pau até ela perder os sentidos.

4/23/2004

Sebá 

O Cobra sempre contava de um amigo de infância, o Sebá.
Quando eles se conheceram na escola, o Cobra tinha levado chá, de lanche, e o Sebá, um pedaço de bolo.
Aí eles resolveram dividir... E ficaram amigos.

Todo dia era a mesma coisa: o Cobra dava um pouco de chá e o Sebá, um pedaço de bolo.

O Sebá é super tímido e caseiro. Demorou um tempão para gente conhecer ele. E quando conheceu, ficou amigo na hora.

No meio da favela, ele se conecta na internet. Aprendeu tudo sozinho.
Um amigo nosso, ex-hacker de Nova Iorque, ficou encantado... O Sebá manda super bem!

No Minimo 

Antes de começar esse blog, mandei um e-mail para o editor do No Mínimo - Xico Vargas - sugerindo uma pauta: um "diário de bordo" do documentário. Mais ou menos parecido com o que eu estou fazendo aqui.
Até hoje, nada.
No Mínimo, ele deveria ter respondido.

Um dia Deus acordou... 

... e pensou: todo mundo que nascer na periferia vai ser bandido.
Será que alguém ainda acredita nisso?

Na época do clip Diário de um Detento 

Quando o clip começou a ser veiculado na MTV ouvi coisas do tipo: é um absurdo mostrar essas coisas na TV, devia ser proibido. (para quem não viu o clip, ele se passava no Carandiru e mostrava a violência relatada na música).

Acho que hoje não seria mais assim.

Foi um bom começo...

Blitz na zs 

Não é difícil imaginar que se a violência aqui é barra pesada, na periferia é algumas vezes pior.

Um dia, a gente entrou num beco e deu de cara com uma blitz.
Mal os policiais desceram do camburão, já colocaram as armas na cabeça de quatro caras. E saíram dando porrada.

Nessa altura da vida, certamente ninguém mais acha que todo mundo que mora na favela é bandido.

Mas para a polícia é. Ninguém é trabalhador nem estudante. "É pobre, é bandido".

Tem até um papo que rola que é o seguinte: para os policiais segurarem a barra de sairem matando, eles enfiam na cabeça que quando eles atiram só furam a pessoa, quem mata é Deus.

Jefinho 

O Jefinho foi um dos primeiros meninos que a gente conheceu.

Como é meio comum na zs, quem consegue ter uma vida razoavelmente estável, fora do crime, sempre tenta influenciar os amigos mais próximos, especialmente os mais novos.
O Jefinho era um amigo assim do Cobra.
Onde o Cobra ia levava o Jefinho, dava conselhos, levava nos shows.

Só que o Jefinho não segurou a barra.
O irmão foi assassinado gratuitamente. E depois o tio.
Após um conflito de meses, ele resolveu vingar essas mortes.
Entrou pro crime, matou e morreu.

No documentário, a gente mostra o Jefinho antes e depois dessa decisão.
O olhar doce continuou o mesmo... E o afeto que ele tinha pela gente também.

A equipe 

A equipe do documentário era composta por mim, o Mauricio, o Cobra e, eventualmente, o Célio (o taxista).
As entrevistas foram feitas com a câmera digital. E quando o Mauricio fazia algum trabalho que sobrava filme, a gente aproveitava para filmar alguma coisa.

A volta para a cadeia 

Cinco anos depois de começar o documentário, é claro, minha relação com esse universo mudou completamente.
Hoje, o Cobra é um grande amigo meu e do Mauricio, independente do documentário ou do universo que ele ou nós fazemos parte.
É óbvio que essa diferença faz parte da amizade, mas de uma maneira bem diferente de como era no início.

Mas, enfim, o que eu queria escrever aqui é sobre uma outra história, que aconteceu na semana passada.

Fui visitar a mãe do Cobra (a mãe do morro), que mudou de casa. Chegando lá encontro um neto que ela cria, que tinha saído da cadeia para passar a páscoa em casa.

Já estava quase na hora de voltar para a cadeia.

Tudo indica que ele foi preso por engano. Mas de qualquer maneira - tendo culpa ou não - ele não é do crime. Isso é facílimo de perceber.
É um menino doce e frágil, com 21 anos, e aparência e jeito de 17.
Mal sabe ir até o centro sozinho. E precisava chegar na cadeia, que ele só conhece por dentro. Chegou lá de camburão.

A "viagem" até a cadeia, que fica ao lado do aeroporto de Cumbica, levou mais de duas horas. No caminho, ele alternava momentos mais relaxados com outros em que ficava super tenso.
É uma decisão bastante difícil: voltar para a cadeia por iniciativa própria.
E bastante difícil também para quem está do lado: dificilmente, um jovem que sai da cadeia consegue emprego.

Com aquele olhar doce ele falou sobre as "leis" da cadeia, as facções, comida, o que pretende fazer quando sair da cadeia etc.

Chegando lá, perto da entrada, ele encontrou um amigo que também estava voltando. Um homem com mais de 30 anos e um olhar nada inocente. Ele olhou para a gente, cumprimentou e seguiu em frente. Estava na cara que se ele parasse para pensar mais 1 minuto, ia embora.

Universo Paralelo 

Foi essa percepção de como as leis, a moral e os valores são diferentes na periferia e na cadeia, que foi dando contorno à idéia central do documentário.
Como acreditam alguns cientistas, se existir um universo paralelo ao nosso ele também deve ter leis, moral e valores, mas totalmente diferentes dos nossos.

No universo paralelo que nós estávamos entrando, o buraco da minhoca, na verdade, são dois, a violência e a música.

Carandiru 

Os clips de rap do Mauricio levaram a gente para o Carandiru.
Fomos lá várias vezes durante as preparações e as filmagens dos clips do 509-E. E depois para gravar depoimentos.
Se a periferia tem leis próprias, na cadeia essas leis são ainda mais radicais.

A lista do que pode ou não pode é enorme.
Mas o mais impressionante é o valor da palavra. Falou, tem que cumprir. Falou errado, dança.

TV Cultura 

Uns dois anos depois de começarmos a filmar, eu e o Mauricio demos uma entrevista para a TV Cultura. Não lembro para qual programa.

Na época, falamos que a gente queria que o filme fosse um alto-falante, um canal para as pessoas falarem...

Um dos entrevistados do programa comentou que achava isso besteira, que o autor de um livro ou de um documentário sempre coloca o seu ponto de vista pessoal.

Concordo inteiramente que a imparcialidade é uma ficção! Mas esse foi o jeito que a gente encontrou de ir o mais aberto possível. Era um universo novo para gente. E quanto menos idéias pré-concebidas, mais chances teríamos de entrar naquele universo.

Fala Tu 

Estava assistindo, agora, uma entrevista com o diretor e o roteirista do "Fala Tu". Ainda não vi o filme. Mas parece legal.

Desde que nós começamos a filmar já foram lançados vários documentários feitos na periferia de grandes cidades brasileiras: sobre violência, rap, etc.
Acho que esse movimento é super bem vindo.
Quanto mais informação, melhor.
Quanto mais interesse, melhor.
Todos ganham com isso.

Cidade de Deus, o livro 

Cidade de Deus foi uma luz!
Super bem escrito e uma aula sobre a vida na favela.

Prêmio 

O clip dos Racionais, Diário de um Detento, ganhou dois prêmios no MTV Awards.
No Capão, o rap estava pegando fogo.
Surgiam vários grupos. Tinha show, todo final de semana.
E os clips continuavam...

Andar no Capão 

Como em qualquer área de São Paulo, tudo é uma questão de conhecer.
Todo mundo sabe as ruas que são mais tranquilas para andar a pé e os lugares mais perigosos, na áreas em que está acostumado a circular.
No Capão obviamente também é assim.
Depois de um medo inicial, fui aprendendo a conhecer os lugares que eu podia andar, onde eu não devo ir sozinha e o medo acabou.

Z 

A entrevista com Z começou com muita negociação. Ele ia na frente com o Cobra e nós atrás, no carro do Célio.
Depois de rodar por vários morros, ele topou dar a entrevista.
Primeiro foi na casa de uma conhecida buscar as armas.
Aí fomos todos para a casa dele.
X era um bandido fodão, do tipo que nem os amigos sabem que ele está no movimento.

A conversa parecia a de um gerente de banco com ética e dor na consciência.

O modus operandi de um assalto envolvia uma estratégia super bem articulada.
Cada um tinha sua função e agia com extremo profissionalismo.
O dinheiro era usado em um negócio que ele abriu com um amigo.

Ele mexia nos revólveres como quem quer dar "firmeza" à história.

Traficante X Outros bandidos 

Com essa explosão de violência na Rocinha deve ter caído a ficha para muita gente.
Traficante, ao contrário de outros tipos de bandidos, não tem ética nenhuma. Se precisar, mata até a mãe.
Um dos motivos do Rio de Janeiro ser muito mais violento que São Paulo é que o crime lá é comandado por traficantes.
Aqui, ainda não é assim.

B 

Uma das primeiras pessoas que a gente conheceu foi o B.
Ele é motorista de um ônibus escolar, que transporta crianças lá no Capão.
Um dos assuntos dele é justamente esse que a gente tava vivendo: lugares que não se pode entrar sem autorização.
Ele conta de várias crianças que ele tinha que deixar no pé do morro, por ordem dos traficantes.

As primeiras idas ao Capão 

A gente pegava o Cobra e saía de carro... Subia morro, descia, entrava em bequinhos...
De vez em quando o Cachorrão ia junto, também.

Era um primeiro contato.
As ruas e lugares que a gente não podia entrar. Os lugares mais tranquilos, mais perigosos.
E a gente filmando...
Fomos conhecendo, também, os primeiros personagens do documentário.

Duas mães e um pai 

Como milhares de outras pessoas, o pai do Cobra tinha ido embora quando ele tinha 7 anos. Mas com o tempo ele conheceu o pai do Cachorrão (do CDM)... Foi se aproximando e o adotou como pai.

Era difícil de entender: quando o Cobra falava na mãe podiam ser duas, a mãe do morro (biológica) e a outra mãe (esposa do pai que ele adotou).

Falando assim fica fácil... Mas quando o Cobra falava, na época, ele não era tão literal (minha mãe do morro e minha mãe, mulher do meu pai). A gente entendia pelo tom, pela quantidade de carinho envolvida na história.

Já o pai era sempre o mesmo. O pai adotivo.

Capão Redondo 

Depois de várias conversas e um primeiro depoimento do Cobra, filmado na casa do meu irmão, fomos pro Capão Redondo.
Eu, meu irmão e o Célio (motorista de taxi).
O ponto de encontro era o bar do pai do Cobra.

Acaso 

Na época não me dei conta da sucessão de acasos: os clips que meu irmão dirigiu na mesma época do assalto, entre vários outros, como a câmera digital que ganhei do G.

Rap 

Das conversas iniciais, nós três definimos o fio condutor do documentário: o rap.
O movimento que estava mudando tudo na periferia: tirando garotos do crime, dando auto-estima, trablaho, etc etc.

As primeiras histórias 

O primeiro contato com revólver ainda criança, as mortes mais violentas, os primeiros roubos, videogame, pipa, os pés de pato, os mãos brancas, modus operandi de um assalto, a ligação com a mãe, os tiros, futebol...
Escrito assim parece notícia de jornal. Uma realidade distante, sem "alma".
Mas era uma pessoa, ali, na minha frente, com um olhar doce, que estava contando essas histórias.

No início, eu só perguntava: o que é pé de pato? o que é tal coisa? e aquilo?
Obviamente o estranhamento vinha dos dois lados.
Só que ele não perguntava nada, apenas observava.
Muitas vezes eu estava falando e parecia que C não estava ouvindo.
Dias depois, ele falava alguma coisa que mostrava que ele não deixava escapar nada.

Meu irmão já tinha feito os clips de rap e tirava mais de letra. Já conhecia o Capão Redondo e alguns dos personagens das histórias.

A aproximação 

No começo era assim... Uma burguesa diante de um rapper. E como acontece nesses primeiros contatos, o Cobra exagerava nas histórias, falava gírias que eu não entendia.

Primeiro, fizemos gravações em áudio.
Os encontros eram na casa do meu irmão, perto do estúdio em que o CDM estava gravando um CD.

4/22/2004

CDM 

Logo depois do clip dos Racionais, meu irmão começou a fazer outros clips de rap, e conheceu o Conexão do Morro.
E quando nós dois tivemos a idéia de fazer um documentário sobre rap, periferia etc. fomos conversar com o Cobra do CDM.
Imediatamente, ele topou a parada.
Ele seria o terceiro elemento do nosso documentário.

A ficha caiu 

O caminho era esse: partir do rap para conhecer uma São Paulo que eu só sabia que existia através dos jornais: a periferia.

Diário de um Detento 

Nessa mesma época, meu irmão, Mauricio Eça, diretor de cinema, dirigiu o videoclip dos Racionais, Diário de um Detento.
Fui em um dia das filmagens e fiquei extasiada: que som era aquele, de onde vinham aqueles caras...
O clip ficou genial.
E os caras continuaram a surpreender: fizeram exigências para ir na festa da MTV, falavam que não queriam ir na Globo etc etc.
Podia parecer besteira numa época em que o marketing já era tudo! Ou uma postura tipo anos 70.
Mas eu via ali um frescor, uma coisa nova... que me dava vontade de conhecer mais.

Depois do assalto 

Na hora do assalto, fui fodona. Desci do ônibus e peguei outro, na mesma hora.
Só que depois que a adrenalina baixou, caí na real: estava morrendo de medo de andar na rua, de tomar ônibus.
Esperei os dias passarem e o medo continuava.
Não era nada radical de não sair de casa. Mas eu comecei a fazer tudo de taxi.

(como não dirijo, até então andava de ônibus, taxi e a pé)

Não era extamente como eu queria viver: com medo.

Achei que eu tinha duas alternativas: me trancar completamente (andar só com motorista, vidro fechado no farol etc) ou entrar de cabeça nessa história.

4/21/2004

O começo 

O ônibus estava vazio. Entrei e sentei, perto do cobrador.
Sem prestar muita atenção, comecei a obervar uma pessoa que vinha andando, sorridente, em direção a roleta.
Um pensamento passou pela minha cabeça: um homem assim simpático jamais seria um assaltante.
Na hora me liguei. Achei estranhíssimo pensar uma coisa dessas...
Sempre andei a pé e de ônibus e nunca tive medo, muito menos fiquei imaginando se alguém é ou não um bandido...
Só que o homem continuou andando, na minha direção...
E colocou um revólver na minha cabeça.
Sem nem pensar, dei minha carteira. Ele tirou o dinheiro e devolveu os documentos e o cheque.
Mas o revólver continuava grudado na minha cabeça.
O problema era o cara que estava sentado ao meu lado, que se recusava a entregar a carteira.
E entre ele e o assaltante tinha a minha cabeça.

Baixinho eu implorava: pelo amor de Deus, da sua grana para ele, depois te pago em dobro.
Uma mulher que estava sentada atrás de mim, ainda tentou melhorar a situação e ofereceu o dinheiro que ela tinha. Mas o ladrão falou que não queria, tinha que ser o $ do cara que estava ao meu lado, que continuava se recusando.

A cada segundo, meu medo aumentava.
"Passa o dinheiro!"

Para assustar mais, ele ainda fez um gesto indicando que estava puxando o gatilho.
Eu nunca tinha visto um revólver "ao vivo" e ainda estranhei... Não parecia com os dos filmes, era de madeira, com cara de "feito" em casa.
O que obviamente não diminuía o meu medo de levar um tiro na cabeça.
Finalmente, depois de várias ameaças, o cara ao meu lado passou o dinheiro: 17 reais.

Não teve tiro. Mas eu não tinha um nome melhor para o blog.

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