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making of de um documentário na zs de sp

3/31/2005

Universo Paralelo no festival É Tudo Verdade 

Dia 2 de abril, às 20h30, no CCBB, em São Paulo.
Dia 6 de abril, às 20 horas, no Memorial Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro.

3/23/2005

Universo Paralelo na Carta Capital 


Cultura

DESTINOS FUGAZES
Um documentário acompanha por seis anos moradores da periferia paulistana e mostra, dia após dia, o crime roçar suas vidas

Por Ana Paula Sousa

Quando, em 1998, a câmera pilotada pelos irmãos Teresa e Mauricio Eça cruzou pela primeira vez as ruas de muita terra e pouca largura do Capão Redondo, extremo sul de São Paulo, Jefinho, porte miúdo e olhar manso, gravou em vídeo seus sonhos. Certo de que o crime não o laçaria, mirou a câmera e disse: “Meu futuro é casar, viver sossegado, longe do mundo das drogas. Assim eu vou levando, trabalhando”.

Teresa Eça
Sina.
“O fim disso vai ser só quando eu morrer”, disse Jefinho
Mais dois anos se passaram e a câmera continuava lá. Jefinho também. Mas com os sonhos partidos. Sentado num balanço, rodeado por árvores salpicadas de sol, ele olha para a câmera, com o mesmo olhar manso, e conta que já matou, que já roubou: “O fim disso vai ser só quando eu morrer. Eu acho que eu não vou conseguir. Não, eu não vou sossegar”.

A câmera que captou a transformação de Jefinho só deixaria o Capão Redondo em 2004. Nesses seis anos de flagras e relatos, mostrou que na ponta da zona sul o destino é ligeiro e implacável. “Você vira a esquina e pode tomar um tiro. Você pega carona com um colega e se vê envolvido num roubo de carro”, define Mauricio Eça, autor do documentário Universo Paralelo, junto com Teresa Eça e com o rapper Cobra, do grupo Conexão do Morro! .

Já exibido na TV Senac, o filme integrará a mostra O Estado das Coisas, do festival É Tudo Verdade, que acontece de 29 de março a 10 de abril, em São Paulo, e de 31 de março e 10 de abril, no Rio. Nascido como um projeto desbravador, Universo Paralelo chega às telas com certo atraso.

De 1998 para cá, a periferia tomou de tal modo o cinema – com ficções como Cidade de Deus e Carandiru ou com documentários como O Rap do Pequeno Príncipe... e Fala Tu – que o projeto tende a ficar com pinta de “mais um”. Mas a lentidão, decorrente da falta de dinheiro e não de uma idéia, acabou por ser um mérito.

O tempo construiu histórias, como a de Jefinho, e propiciou uma rara intimidade com esse universo. Berço do rap paulistano, o Capão Redondo forma, com o Jardim Ângela ! e o Parque Santo Antônio, o dito “triângulo da morte”. Não à toa, estranhos não são bem vistos naquelas quebradas. Ter transposto essa barreira é a conquista de Universo Paralelo.

Diretor do premiado clipe Diário de um Detento (1997), dos Racionais MC’s, e dos clipes dos grupos Conexão do Morro e 509-e, Eça virou “mano” por adoção. Da contradança de violência e criatividade que viu à sua frente, tirou uma idéia: fazer um filme de ficção sobre as vidas erguidas na periferia.

Com a irmã, passou a colher os depoimentos de Cobra. Mas as histórias que o rapper contou viraram o plano de ponta-cabeça. “Vimos que, para entender aquele universo, só mesmo com um documentário”, justifica Teresa. “Depois disso, quem sabe, estaríamos preparados para fazer uma ficção sem cair naqu! ele erro comum de mostrar só o pitoresco.”

Cobra tornou-se uma espécie de mestre-de-cerimônias do filme. Era ele quem fazia as apresentações e alinhavava os contatos para as entrevistas. As visitas aconteciam, em geral, aos sábados e domingos. Em seis anos, a diminuta equipe nunca ficou mais do que três semanas sem aparecer no Capão. Se, nos primeiros contatos, escutavam apenas histórias-chavão, com referências a Deus ou conduzidas por uma espécie de “marketing bandido” – no estilo “sou um cara perigoso” –, aos poucos o pé-atrás foi sumindo.

Teresa Eça
Mundo implacável.
O rapper Cobra (à esq.), Teresa e Eça desvendaram o Capão Redondo
Dia após dia, conforme ganhavam a confiança dos moradores e as mentiras escasseavam, os diretores foram percebendo que uma pergunta se impunha: Por que você entrou no crime ou por que você não entrou? “Todo mundo lá, principalmente os garotos, teve que tomar essa decisão um dia.” Cobra, à frente da câmera, relembra, cheio de graça, o dia em que tomou essa decisão:

– Uma vez a gente foi na alameda Itu roubar um cara que pagava o meu pai. Catei um revólver desse tamanho, pegamo o busão e fomo pra lá. Mas, na hora de enquadrar o cara, um motoqueiro parou do lado do carro dele e, cê não acredita, o maluco roubou antes da gente! Isso foi o deixa da vida pra mim. Mano, eu não nasci pro crime. Cada um tem um dom, eu não tenho o dom pro crime.

DJ Lah, do grupo de Cobra, abandonou o revólver quando, brincando, quase matou ! um amigo. Leed, que tinha um medo danado de assaltar, parou por causa de uma tragédia: ao praticar o primeiro roubo, tomou um tiro nas costas e ficou numa cadeira de rodas. Dexter, do 509-e, deixou o crime pela música:

– O crime é um atrativo assim muito forte. Ele te dá coisas que fazem você se render. O rap é o grande responsável pela minha mudança. Eu saí do crime de cabeça erguida, e entrei nele também de cabeça erguida, e em grande estilo. O rap é a música que eu considero a mais revolucionária do mundo. Traz auto-estima.

Como diz Eça, as histórias mudam, mas são cíclicas. “É um círculo que não acaba. Mesmo a história que o músico conta no rap pode acabar acontecendo com ele.” O diretor recorda o garoto que foi ator num clipe, fazendo o papel de vítima do tráfico, e, meses ! depois, foi assassinado em circunstâncias semelhantes à do personagem.

Assim descrito, Universo Paralelo pode parecer excessivamente pessimista ou mundo-cão. Mas todos os relatos resguardam uma humanidade que tempera os instantes ferozes. Além do mais, a impressionante rota de Jefinho tem também a sua contramão.

O Conexão do Morro, por exemplo, estava começando a carreira em 1998 e hoje está no quarto CD. Fernando FF começa o filme atrás das grades do Carandiru, acusado de participar de um resgate de presos, e termina em liberdade, absolvido:

– Você pôr o pé pra fora, parece que tá caindo um elefante nas costas. Uhhhh! Você põe o pé pra fora, você, uhhhh. Essa sensação que eu tô sentindo agora é a brisa, é o vento...

E, claro, muita coisa ficou de fora, como a entrevist! a do ladrão de banco que casou no meio do filme e não quis que a mulher soubesse do seu passado, o menino de 10 anos que falava como um homem de 25, com trejeitos de bandido, e ainda boa parte do que dizia Jefinho. “A mãe dele pediu para que alguns detalhes de sua ação como bandido fossem retirados”, conta Teresa.

O letreiro que informa, no fim de Universo Paralelo, que Jefinho morreu é o momento mais violento do filme. É uma violência silenciosa, sem efeitos especiais e duramente previsível. Como anuncia Cobra, no Capão Redondo uma pessoa tem 46 vezes mais probabilidade de morrer do que nas regiões nobres. “Em São Paulo, o terceiro maior centro consumidor de Ferrari fora da Europa, as estatísticas nunca estão do nosso lado”, alerta. Mas Cobra é um dos que vão contra ela, e segue fazendo sua música.

Na história de Cobra e de o! utros rappers, Mauricio Eça encontra conforto: “É uma realidade terrível, mas, nesses seis anos, acho que a periferia mudou para melhor. Os moradores estão mais articulados, têm mais auto-estima e tentam se impor”. Os filmes que antecederam Universo Paralelo teriam contribuído para isso? “Muitos filmes só reforçaram estereótipos e transformaram a tragédia em historinha. Mas, ao mesmo tempo, fizeram os moradores da periferia pensar que, se estão fazendo filmes sobre eles, é porque são alguém.”


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